A bombeira civil Nataly Helen Martins Pereira, que confessou o homicídio da adolescente grávida Emilly Azevedo Sena, pode enfrentar uma pena de até 90 anos de prisão. O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) espera que o julgamento ocorra ainda este ano.
Ela está presa em uma cela individual na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, desde o dia 13 de março. A autora do crime foi indiciada por homicídio quadruplamente qualificado (motivo torpe, asfixia, meio cruel e dissimulação), ocultação de cadáver, registro de parto alheio como próprio e uso de documento falso.
Segundo o promotor de Justiça Rinaldo Ribeiro de Almeida Segundo, responsável pela denúncia, o cálculo da pena máxima foi feito com base nas penas máximas de cada crime. No entanto, o valor final da pena ainda depende da aceitação dos crimes pelo Tribunal do Júri.
A investigação revelou que Nataly alterou a cena do crime, limpando parte da casa para remover vestígios de sangue. Ela também incentivou o cunhado a levar a criança e simulou um parto natural, espalhando sangue pelo próprio corpo.
O processo judicial será dividido em duas fases. A primeira fase consiste na audiência de instrução, onde serão ouvidas as testemunhas e a ré.

As investigações revelaram que a autora simulou uma gravidez por meses, enganando familiares com exames falsos e fotos adulteradas.
A perícia constatou, ainda, que a vítima estava viva enquanto o bebê era retirado de seu ventre. Além disso, foram evidenciadas diversas lesões contundentes, dentre elas, lesões na face e no olho direito que podem ser resultantes de socos. A vítima estava contida com cabos de internet em seus punhos e pés.
O caso
A autora confessou o crime, alegando que agiu sozinha com o objetivo de ficar com o bebê.
Nataly é mãe de três filhos, e seu marido chegou a ser detido no dia do crime, mas foi posteriormente liberado.
O caso, de extrema crueldade e brutalidade, causou indignação e comoção na população de Mato Grosso, e ganhou destaques em veículos da imprensa de diversos países, como Estados Unidos, Argentina, México, Índia e Austrália.

Desaparecimento
No dia 12 de março, Emelly desapareceu após sair de sua casa, em Várzea Grande, com destino a Cuiabá, onde buscaria roupas doadas para a bebê. No mesmo dia, ao final da tarde, um casal compareceu ao Hospital Santa Helena solicitando uma declaração de nascimento para uma recém-nascida. Eles disseram que o parto havia ocorrido em casa.
Leia mais: grávida de 9 meses desaparece e casal é preso ao tentar registrar bebê em Cuiabá

Os médicos solicitaram exames da suposta mãe, que inicialmente recusou, levantando suspeitas. Após insistência, ela realizou os procedimentos, que constataram a ausência de sinais de parto recente, como a produção de leite materno.
O casal foi conduzido à Central de Flagrantes, enquanto a criança permaneceu sob cuidados médicos.
Imagens das câmeras de segurança do hospital, que o Primeira Página teve acesso exclusivo, mostram o momento que Nataly chegou a unidade com a criança, na tarde de quinta-feira, para tentar fazer o registro.
Leia mais: vídeo mostra mulher que matou grávida chegando a hospital com bebê roubado
A localização do corpo
Na delegacia, os policiais fizeram o interrogatório do casal. A mulher reafirmou que o parto ocorreu com ela sozinha, na casa do irmão.
Desconfiados, os policiais se dirigiram à casa indicada pela mulher, no bairro Jardim Florianópolis. Nos fundos da propriedade, encontraram um corpo enterrado em uma cova rasa, com as pernas expostas e o abdômen aberto. Imediatamente, foi identificado que o cadáver era Emelly Azevedo.
Leia mais: adolescente grávida é achada morta no quintal de casal que tentou registrar bebê em Cuiabá

Modus operandi
Nataly tinha engravidado, mas perdeu a criança em setembro de 2024. No entanto, ela manteve a falsa gravidez. Nas redes sociais, ela compartilhou diversos registros do período que esteve gestante, como o chá de revelação do sexo da criança.
Para manter a falsa gravidez, Nataly começou a procurar mulheres grávidas que desejassem doar o bebê após o parto. Vídeos encaminhados à TV Centro América mostram uma das tentativas de Nataly.

Leia mais: mulher que matou adolescente para roubar bebê procurava grávidas na internet
Por não conseguir encontrar alguém que quisesse doar a criança, Nataly chegou até Emelly por meio de grupos de mensagens na internet com a promessa de doar roupas.
Nataly pagou uma corrida de aplicativo para Emelly ir até sua casa, no Jardim Florianópolis. Lá, ela matou a adolescente.
Depoimentos e detalhes do crime
No depoimento, Nataly confessou que assassinou sozinha Emelly. Ela atraiu a jovem com a promessa de doar roupas para a criança que iria nascer. Sem demonstrar arrependimento, a mulher contou com riqueza de detalhes como matou a adolescente.

Segundo o depoimento, Nataly atacou a jovem pelas costas, aplicando um golpe conhecido como “mata-leão” enquanto ela estava sentada em uma cadeira.
Com Emelly desacordada, Nataly usou um fio de internet para amarrá-la e arrastou a vítima até um quarto, onde iniciou a retirada do bebê. A suspeita afirma que acordou a jovem e disse que “iria cuidar da criança”.
A criança foi arrancada de Emelly enquanto ela ainda apresentava sinais vitais.
Leia mais: sem demonstrar arrependimento, mulher detalha como matou adolescente grávida em Cuiabá
Velório e repercussão
O velório de Emelly ocorreu na Funerária Capelas Jardins, em Cuiabá. Tristeza e revolta marcou o último adeus a jovem.
Família, amigos e colegas carregavam cartazes com frases de ordem justiça.

Nas redes sociais, muitas pessoas também publicaram suas indignações diante do assassinato cruel.
Leia mais: tristeza e revolta marcam velório de adolescente grávida morta em Cuiabá
A Prefeitura de Cuiabá e o Governo de Mato Grosso lamentaram a morte da jovem. A Escola Estadual Professora Elizabeth Maria Bastos Mineiro, onde Emelly estudava também decretou luto.
Emelly foi sepultada no Cemitério Parque Bom Jesus Cuiabá.
Vida de Emelly e o futuro da recém-nascida
Uma jovem feliz, carinhosa, estudante do primeiro ano do ensino médio, que aguardava ansiosa a chegada de sua primeira filha. Assim, Emelly foi descrita pelos familiares e amigos que conviveram em ela.
No dia 10 de março, a adolescente tinha ido à escola buscar as atividades que faria durante o período de licença maternidade.
A recém nascida foi registrada com nome Liara e vive com o pai e avó materna.
Leia mais: bebê de grávida assassinada se chama Liara e permanece internada em hospital de Cuiabá

Especialista aponta psicopatia em assassina
O psiquiatra forense Guido Palomba, referência nacional na área, analisou o caso de Nataly Helen. Ao Primeira Página, o especialista afirmou que a autora do crime apresenta traços de psicopatia, destacando a frieza e a brutalidade do ato.

Leia mais: mulher que matou grávida para roubar bebê tem traços de psicopatia, diz psiquiatra renomado